Nietzsche: Apolíneo e Dionisíaco, entre a razão e o caos

Na filosofia de Nietzsche, os conceitos Apolíneo e Dionisíaco referem-se à dois deuses gregos. Apolo é um deus relacionado à razão e à ordem. Dionísio é um deus relacionado à loucura e caos.

Os conceitos Apolíneo e Dionisíaco são temas centrais no livro O Nascimento da Tragédia, a primeira grande obra de Nietzsche. O filósofo do bigode analisa a cultura e a arte grega a partir dessas duas forças opostas da natureza.

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O que Nietzsche quer dizer com Dionisíaco e Apolíneo?

Apolíneo deriva de Apolo, o deus grego do sol, relacionado à ordem, luz, autoconsciência e individuação. O pensamento racional, baseado em estruturas lógicas, é apolíneo.

Do outro lado, dionisíaco deriva de Dionísio, deus das festas e do vinho, relacionado aos instintos naturais. Uma expressão pura do dionisíaco é a música, que não apela para a racionalidade, mas para as emoções.

Os conceitos nietzscheanos dionisíaco e apolíneo são usados em discussões sobre arte, especialmente sobre a tragédia grega. Nietzsche admira a combinação entre apolíneo e dionisíaco. O ideal é a fusão dessas duas forças, que permite utilizar a energia dionisíaca de forma construtiva dentro de uma estrutura apolínea.

Na tragédia Édipo Rei, por exemplo, assuntos temíveis, como a injustiça e a morte, encontram expressão de uma forma ordenada e bela em enredos e diálogos. O público via esses conceitos de forma dionisíaca.

O coro, por meio de desapego e união, explicava as experiências dos personagens e ajudava o público a separar-se de si mesmo e perceber as ideias terríveis de uma forma despersonalizada. Isso permite ao espectador lidar com ideias desagradáveis de uma forma mais leve que a discussão apolínea.

A arte está em declínio quando essa combinação cessa. Nietzsche põe a culpa desse declínio em Eurípedes, que “leva” o espectador para o palco.

Em contraste com Aquiles ou Sófocles, as peças de Eurípedes não se concentravam em heróis trágicos, mas no “homem comum”. Eram dramatizações do cotidiano. Isso permitia ao público fazer julgamento moral sobre os personagens, de um modo que não poderiam fazer com os heróis trágicos.

O legado dos conceitos Apolíneo e Dionisíaco

Os conceitos apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, e o próprio livro O Nascimento da Tragédia, não tiveram uma boa recepção a princípio. O próprio autor disse que o livro era mal escrito, pesado e embaraçoso. Contudo, as ideias se tornaram notáveis e são discutidas nos campos da arte, da ética e da política.

Há autores que afirmam a influência dos conceitos apolíneo e dionisíaco na psicanálise. Os conceitos de Nietzsche seriam parecidos com id e superego na teoria de Freud (ou isso e supereu).

Um psicanalista que recorreu amplamente à ideia do dionisíaco foi Otto Gross, considerado um anarquista. Ele defendia um estilo de vida “hedonista” e atividade sexual não reprimida.

Camille Paglia, crítica de arte e cientista social, escreve sobre os conceitos apolíneo e dionisíaco em Sexual Personae. Paglia afirma uma base biológica para a dicotomia apolíneo/dionisíaco. Para ela, “a disputa entre Apolo e Dionísio é a disputa entre o córtex superior e o cérebros límbicos e reptilianos mais antigos”.

Ruth Benedict, antropóloga americana, usou a dicotomia apolíneo/dionisíaco em descrições de diferentes culturas.

Considerações finais

Por mais que a filosofia de Nietzsche seja frequentemente relacionada à valorização dos instintos e crítica da razão, o apolíneo não é rejeitado completamente, como muitos podem pensar. Nietzsche critica, sim, a desvalorização do dionisíaco.

Por mais que Nietzsche tenha criticado sua própria obra (O Nascimento da Tragédia), seus conceitos de apolíneo e dionisíaco permanecem como ideias relevantes em várias áreas, como arte, psicologia e sociedade.

Teremos ganho muito a favor da ciência estética se chegarmos não apenas à intelecção lógica mas à certeza imediata da introvisão de que o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações.

Nietzsche em O Nascimento da Tragédia

Leia mais:


Alexander Gatherer (2014). The Dionysian and the Apollonian in Nietzsche: The Birth of Tragedy.

Friedrich Nietzsche (1992). O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e pessimismo.

Scotty Hendricks (2018). What Nietzsche really meant: The Apollonian and Dionysian.

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